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[mkdf_section_title title_text_transform=”capitalize” title_text_align=”center” title_size=”medium” title=”A febre dos mercados gastronômicos” title_color=”#210068″][mkdf_section_subtitle text_align=”center” text=”por Tiago Halewicz”]

Genuínos, ecléticos, descolados e democráticos, os mercados são uma alternativa para os viajantes que desejam experimentar os hábitos alimentares de grandes centros e observar a vida cotidiana. Esses templos da gastronomia disputam com museus, parques e monumentos a preferência dos turistas e se reinventam de tempos em tempos para atender um público cada vez mais exigente, curioso e ávido por colocar na bagagem as melhores memórias gustativas. Nos quatro cantos do mundo, essas instituições refletem os cinco sentidos e os trejeitos urbanos de uma forma original. Entre os milhares espalhados mundo afora, oito mercados na Europa e na Ásia são um retrato contemporâneo de uma atividade que está presente na vida do ser humano desde a Antiguidade.

A genuinidade dos produtos locais é a diretriz de dois mercados no continente europeu desde a sua fundação: o Östermalms Saluhall, de Estocolmo, e o Mercado de San Miguel, na capital espanhola. Certamente outras cidades da Europa oferecem modelos muito semelhantes, entretanto, nesse quesito, esses se colocam no topo da lista.

Na região central de Estocolmo, o Östermalms Saluhall documenta os interesses gastronômicos dos habitantes da capital sueca. Erguido em tempo recorde no ano de 1888 (em pouco mais de seis meses) pela Östermalms Saluhallar Limited, o edifício de tijolos vermelhos em estilo Arte Nova remete à Renascença nórdica e oferece verdadeiras iguarias escandinavas. Os melhores peixes das águas geladas do Báltico, carnes de alce, rena e veado compõem a oferta das bancas locais. Além dos produtos levados para casa pelos moradores do elegante bairro, é possível degustar alguns pratos locais em pequenos estabelecimentos, como svenska köttbullar (almôndega sueca de carne) com molho à base de manteiga, creme de leite e caldo de carne, e smörrebröd (uma espécie de sanduíche aberto com salmão defumado ou vários outros tipos de carnes), que é o prato nacional da Dinamarca, mas muito bem assimilado pelos suecos.

Saindo da Escandinávia, é em Madri que encontra-se o verdadeiro panteão da gastronomia espanhola. O Mercado de San Miguel, localizado no coração da cidade, foi inaugurado em 1915 em um deslumbrante monumento da arquitetura em ferro de autoria do arquiteto Alfonso Dubé y Díaz. O espaço revitalizado em 2009 assumiu o posto de primeiro mercado gastronômico na Europa e mantém o compromisso de oferecer o melhor jamón ibérico e uma infinidade de embutidos, entre uma vasta oferta de pratos da cozinha espanhola para comprar e degustar de pé ou nas grandes mesas compartilháveis. Uma visita ao Mercado de San Miguel também é uma grande experiência para os apreciadores de vinho; do tempranillo ao cava catalão, a qualidade é sempre regra.

Um verdadeiro empurra-empurra, corredores abarrotados, gente por todo lado, vendedores anunciando suas mercadorias e, em alguns recantos modestos ou no meio de uma ala principal, pessoas comendo, de pé, sentadas, equilibrando-se como podem. Assim são os mercados que ainda mantêm em seu DNA o gene da central de abastecimento; aqueles lugares sem muita infraestrutura, mas que oferecem simplesmente de tudo, enchem os olhos de cores vibrantes, formas variadas, põem no tato texturas que provocam e no olfato aromas exóticos.

Mercat de Sant Josep, ou La Boqueria, como é mais conhecido, é a cara de Barcelona, sendo ponto obrigatório para quem visita ou vive na cidade de Gaudí. É impossível não percebê-lo no vai e vem entre Las Ramblas e o Raval. Estabelecido no ano de 1840, La Boqueria é fruto da reorganização dos vendedores que se aglomeravam no lado de fora da cidade medieval. O plano de reforma urbana e a respectiva derrubada dos muros conferiu aos comerciantes um espaço exclusivo e lá se mantêm até hoje. Frutas, verduras e peixes do Mediterrâneo para os locais, macedônias coloridas e cones de papel com frituras para os turistas, são 2583 m² e 300 estabelecimentos debaixo da cobertura posta no ano de 1914 e atrás do pórtico que exibe a estética inconfundível do Modernismo Catalão.

Ainda na atmosfera mediterrânea, o Shuk Ha’Carmel é um dos mais centrais e populares mercados de Tel Aviv. Aqui, o caos se organiza de acordo com o traçado urbano, não há um prédio específico, não há entrada e nem saída, ele apenas existe e oferece as cores e aromas do Oriente Médio. Estabelecido em 1920 por imigrantes judeus vindos da Rússia, somente 11 anos depois da fundação da cidade, o Carmel é o típico modelo de shuk, mercado árabe. Com a ajuda do movimento sionista e apoio do primeiro prefeito de Tel Aviv, Meir Dizengoff, o mercado foi se moldando às ruas e aquecendo a economia do Gush Dan, hoje a maior área metropolitana do Estado de Israel. Impossível não se seduzir com o autêntico falafel e hommus ou mesmo com a doçura quase insuportável da pastelaria árabe-israelense.

No extremo oriente, o fascínio se resume a uma tigela inox, onde tudo que se pode imaginar é misturado ao arroz e coberto com molho de pasta de pimenta para resultar no prato nacional sul-coreano, o bibimpap. Mas podem acreditar, é fantástico. Ele é onipresente no Gwangjang, o mercado mais popular da Coréia do Sul, e se funde às cinco mil bancas comerciais e aos vinte mil trabalhadores que vendem dos trajes típicos do país aos produtos de beleza, passando por todas as iguarias orientais. Atrás do balcão dos restaurantes improvisados, senhoras de idade avançada assediam os turistas, na língua coreana mesmo, preparam a comida e penduram as cédulas de won em prendedores de roupa. E assim funciona desde 1905, ano de fundação, e assim sempre vai ser no grande pavilhão às margens do rio Cheonggyecheon.

Ao final da primeira década do século XXI, uma nova tendência de mercado surgiu para atender a um público cada vez mais exigente. São os chamados mercados com curadoria, onde tudo que se vende é avaliado e não basta ser bom, tem que ser excelente. É assim no Mercado da Ribeira, em Lisboa, no Sarona Market, de Tel Aviv, e na Hala Koszyki, em Varsóvia. Esse novo conceito dá exclusividade para restaurantes, pequenos, médios ou grandes, e a lojas de produtos gastronômicos. E enquanto os outros mercados cerram as portas ao cair da noite, esses moderninhos não param, vão madrugada adentro, convidam à diversão e ao convívio.

Desde que um grupo editorial venceu o concurso proposto pela Câmara Municipal de Lisboa em 2010, a instituição mercado voltou a ser moda e nunca mais foi a mesma. Quando o Time Out abriu o Mercado da Ribeira, em 2014, ofertou à indústria da alimentação, turismo e entretenimento uma nova forma de economia. Versões mini de restaurantes badalados da capital portuguesa oferecem seus pratos a preços democráticos, sempre prezando pela alta qualidade. Pastel de nata, bacalhau, cozinha fusion, vinhos do Douro ou do Alentejo, lojas de sardinhas enlatadas, conquistaram uma fatia preciosa da economia lisboeta e converteu a Ribeira em um dos negócios mais inovadores da Europa.

Seguindo a onda de Lisboa, na antiga colônia de alemães templários em Tel Aviv, emergiu uma grande zona comercial com lojas, edifícios de escritórios e um mercado. O Sarona Market, aberto em 2015, é uma versão organizada do Shuk Ha’Carmel. Lojas e restaurantes incríveis, belezas por todos os lados, uma verdadeira bolha de paz e tranquilidade no clima geralmente tenso das questões internas do Estado de Israel.

Para fechar essa seleção, no limite leste da União Europeia, a Hala Koszyki vai além. O empreendimento de 2016 demonstra a vontade dos poloneses de assimilarem códigos cosmopolitas. A vibrante Varsóvia, capital do país que esteve por mais de 40 anos atrás da Cortina de Ferro, oferece cada vez mais alternativas inovadoras. A Hala Koszyki é uma delas. Dispõe desde comida tradicional polonesa – vendida no balcão ou em restaurantes de chefs estrelados – à comida tailandesa, indiana, cubana e, até mesmo, colombiana. O projeto impecável de renovação de um antigo mercado do início do século XX reserva espaço para shows, intervenções artísticas, ateliês, escritórios de arquitetos. Tudo coroado por uma grande ala central, onde um bar, à moda tradicional, garante a diversão de uma juventude que olha para fora, absorve novidades e deseja viver sem fronteiras.

Imagem de Peter H por Pixabay 

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Tiago é diretor da Casamundi Cultura e viaja várias vezes ao ano, sozinho ou acompanhando grupos. Este texto seu foi matéria de capa do Caderno ZH Viagem desta semana e vai se desdobrar em alguns encontros lá na casa dos Destemperados, assim que ele retornar da Croácia, viagem que faz em maio. No segundo semestre ainda embarca com outros grupos para o Peru e o Irã e certamente trará mais novidades.