Lima em crônica

Lima, Peru: histórica, diversa, contemporânea

O avião pousa no Jorge Chávez, aeroporto internacional que fica em El Callao, cidade portuária distante (e agora integrada) 10 km de Lima, capital do Peru. É manhã ainda, sonolenta, típica. Pegamos um táxi já no saguão, expectativa e pressa de chegar. Lá fora, sons típicos de trânsito complicado. Mais além, a vista é o oceano Pacífico que, tomando boa parte do caminho, nos reanima, espanta o cansaço, desperta a curiosidade. O simpático e falante motorista nos deixa no hotel, que nos recebe com sorrisos e um suco de frutas vermelhas, delicioso e gelado. Malas na cama, banho, roupa limpa e leve (calor e muito sol), e vamos pra rua. Estamos em Miraflores, bairro central e tradicional. Um aparte: Felippe, meu amigo, e eu, resolvemos que esta primeira viagem ao Peru seria dedicada somente a Lima. “Mas só Lima? Tem tanto a ver assim?” Veremos.

O movimento é grande, o sol enorme, barulhos de cidade, pessoas transeuntes, pra lá, pra cá. Muito turista, percebemos logo, uma Babel de idiomas, fisionomias e câmeras fotográficas (ok, a grande maioria celulares). Diversidade evidente, tão evidente quanto o cuidado admirável com a limpeza do distrito, da cidade. Calçadas impecáveis, ruas largas tomadas de carros e ônibus e táxis em disputa por espaço e passageiros (muitos bem antigos, frota defasada, pelo jeito). E buzinas, muitas buzinas – falaremos mais delas. Pela proximidade, fomos direto para o Larcomar, um shopping “pendurado” sobre o oceano Pacífico. O lugar é moderno, lotado, muitas lojas tradicionais, bares e cafés convidativos, fast-food para todos os gostos e ótimos restaurantes espalhados pelas passarelas à beira-mar, no alto de falésias. A vista panorâmica, já devem ter imaginado, é belíssima. Ainda mais ao entardecer (sim, retornamos dias depois, registramos o sol se pondo e as pessoas se repondo, celebrando o dia que se vai). Nosso dia foi no bairro. Muitos cantos descobertos, muitas conferidas no mapa, muita gente atenciosa dando informação, muito calor, muito verde, muchas gracias, muita água, muitos gatitos espalhados pelo Parque Kennedy, a Praça dos Gatos. Buzina, buzina, belos bares, uma cerveja gelada, duas, uma Inca Kola pra experimentar, outra cerveja. Dia cheio. Noite curta.

Dias cheios, aliás. O calor e o sol não dão trégua, o clima desértico ameno, com seu alto nível de umidade e ausência de chuva, impõe ao branquelo visitante um protetor solar 100. Protegidos, chegamos no Centro Histórico. O encontro com a Plaza de Armas foi marcante. Povo e cores, agitação, grandes e belos prédios que se impõem, como a Catedral de Lima, o Palácio Episcopal (ou Palácio do Arcebispo), o Palácio do Governo e da Prefeitura. A poucos passos dali, entre turistas e locais, poucos vestidos à tradição, entre carros e ônibus – buzina, buzina -, alguns museus e outras catedrais importantes, como o Museo del Banco Central de Reserva del Peru e o Museu Bodega y Quadra de Lima, um museu/sítio arqueológico. Destaco o Convento de São Francisco e suas catacumbas, seus ambientes com rica decoração e sua impressionante e valiosa e muito antiga biblioteca, que agrega cerca de vinte e cinco mil volumes, incluindo muitas obras raras. Vale muito a visita, mesmo com a (correta) proibição de fotos e vídeos. Na Casa da Literatura Peruana nos esbaldamos com suas diversas e modernas salas de exposições e eventos de incentivo à leitura, onde se encontra também a Biblioteca Mário Vargas Llosa e seus exuberantes vitrais no teto. A beleza, tradição e continuidade da literatura peruana estão garantidas, por certo.

Buzina, buzina, e daí? A essa altura já tínhamos o trânsito caótico, que segue suas próprias regras, como parte do nosso passeio. Esse caos organizado e barulhento virou tradicional, funciona, anda. Andamos, fomos de táxi, fomos de aplicativo, fomos de ônibus velho, fomos a pé. Fomos para os bairros. No San Izidro, destaca-se o espetacular Parque El Olivar, praticamente um bosque, com mais de mil e quinhentas oliveiras centenárias, um lindo local de sossego, silêncio e contemplação. E, também, o sítio arqueológico Huaca Huallamarca, uma grande pirâmide de barro que era um templo cerimonial pré-inca. No Bairro Barranco, nosso preferido, a boêmia da vida noturna, praias de pedrinhas, sem areia, e muitas atrações turísticas, como a concorrida Plaza San Francisco e a Puente de los Suspiros. A arte se faz presente em grandes murais de arte urbana que colorem paredes, nos antiquários e exposições. Gostamos muito da Galeria Dédalo, que reúne peças autorais de design para compra, e tem um café/quintalzinho bonito e bom pra descansar. Demoramos no MATE, Museo Mario Testino, do renomado fotógrafo peruano, sucesso no mundo da moda e das celebridades, com trabalhos na Vogue, Vanity Fair e para a Família Real Britânica. Um espetáculo de cores e charme, principalmente na série de fotografias sobre os povos peruanos. Deslumbrante. Com a noite, chega mais gente, e a música ecoa. Bares, restaurantes e baladas, que ocupam antigos casarões restaurados se iluminam. Pelas ruas desfilam o povo, o rock, jazz, a flauta de pã, o eletrônico, o ritmo se mistura. O Boulevard Sánchez Carrión abraça, conduz o passeio pelos barrancos, chama para um café dentro da locomotiva estacionada, te serve uma cerveja gelada, te encanta. Pena que a noite não é uma criança. Nem nós.

Voltemos aos museus. O Museu Larco é obrigatório. Fundado em 1926, conta com um acervo de mais de quarenta e cinco mil obras e objetos arqueológicos, exibidos em ordem cronológica, facilitando a visita e o entendimento dos mais de três mil anos de história peruana e das culturas pré-incas e incas. O Museu de Arte de Lima, MALI, fica num grande e belo jardim, e suas grandes salas mesclam obras contemporâneas e acervos arqueológicos. O Museo de Arte Italiano de Lima também vale uma passada. Mas o que mais nos impressionou foi o LUM, Lugar de la Memoria, la Tolerancia y la Inclusión Social. A começar pelo próprio projeto arquitetônico, erguido bem defronte o oceano Pacífico, encravado no alto de uma encosta, em Miraflores. Magnífico, duro, forte como o seu conteúdo e belo como o sentimento que representa. Cerca de setenta mil pessoas morreram no Peru durante os anos de violência no país, entre 1980 e 2000. A mostra permanente cobre todo este período e se divide em três temas, um por andar. Começa apresentando as raízes universitárias do grupo Sendero Luminoso, o surgimento do Movimiento Revolucionario Túpac Amaru (MRTA), a luta violenta do Estado contra o terrorismo, encerrando com o aprendizado e a organização da sociedade civil. “Nunca más!” é o grito, escrito nas paredes. Grandes espaços de layout inteligente e didático, um Centro de Documentação de livre acesso, com imagens reais, painéis enormes e depoimentos em telas de vídeo. História, angústia, tristeza, aprendizagem, crescimento. Na cobertura se chega pressionado mentalmente, sufocado, mas o ar livre, o vento, a vista deslumbrante do mar, trazem certo conforto, e te fazem pensar. Um lugar obrigatório, a todos, independente da nacionalidade, principalmente para aqueles que veneram torturadores e torcem pela volta dos anos de ditadura e seus podres personagens, puramente por não conhecer a história ou, simplesmente, por carregar uma índole discutível e ignorante. “Nunca más!”

Dali, para amenizar o impacto, visite o Parque do Amor, de preferência no final do dia, pouco antes do pôr do sol, e por ali fique. Inspirado no Parc Güell de Barcelona, é um lugar bem bonito, florido, com uma vista estonteante. Do lado, uma praia de pedras recebe surfistas, praticantes de parapente e visitantes. Mais à frente, a caminho do shopping Larcomar, fica o La Rosa Nautica, restaurante de localização privilegiada: fica numa falésia, cercado de oceano. O casarão de madeira, com grandes janelas de vidro, tem arquitetura charmosa, e o acesso é feito por um píer cheio de lojinhas. Apesar de não ser barato, é uma experiência completa: gastronomia tradicional peruana num lugar impressionante.

Só Lima? Vejamos: a cozinha criolla, o ceviche, os cassinos, a Inca Kola, os mercados populares, o sanduíche do La Lucha, os bairros, os cafés, as muitas casas de câmbio, o novo sol, os museus, os bares, os sítios arqueológicos, mira flores, as catedrais, as ruas limpas, barrancos, o Pacífico, a modernidade, os prédios históricos, a história. Buzina, buzina. Lima é tudo isso. Mas Lima é, principalmente, seu povo. Muito me encantei com tudo o que vi (e não vi tudo), mas a melhor lembrança que trago é das pessoas, do povo que se comunica através da arte colorida, da diversidade, do respeito. O taxista, a camareira, o garçom, o senhor de terno na calçada quente pronto para indicar o caminho, o guia turístico, a vendedora de bugigangas no centro. Alegres, simples, honestos, orgulhosos, educados, os peruvianos são a alma da cidade. Eles te fazem querer voltar, e vontade não falta. Tem tanto a ver assim? Tem, muito.

Giancarlo trabalha com a Casamundi há mais de dez anos. Trouxe sua experiência no mercado de câmbio turismo e o conhecimento em webmarketing, design e criatividade gráfica para gerenciar a Cambiomundi. Além destas aptidões, é um grande cronista, tendo participado em várias edições do projeto Santa Sede e publicado diversos textos. É autor do romance de aventura “As mitologias roubadas – Os 12 Trabalhos” e deseja que sua próxima viagem seja para a Noruega.

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