A primeira alvorada de 2020

por Nicholas Morassutti

Começamos a escalada ao Kilimanjaro no dia 26 de dezembro de 2019, meu filho Francisco e eu. Nos primeiros três dias eu estava 100%. A subida inicial não é exatamente difícil. É um trekking de alguns poucos quilômetros por dia, numa escala não muito íngreme.

No quarto dia já estávamos a mais de 4.200 metros acima do nível do mar e aí comecei a sentir os efeitos da altitude. Tive uma dor de cabeça forte, que acabou me acompanhando todos os outros dias, e um cansaço enorme: consequências conhecidas do ar rarefeito. E aquele sentimento ruim de “o que estou fazendo aqui?”. Manter a moral elevada nessas condições e não desistir é bem difícil. Quando chegamos no acampamento onde iríamos ficar no final deste dia, o “Lava Tower”, a 4.800 metros, os guias perceberam meu estado e disseram que a gente precisava alterar nosso roteiro. Eu precisava descer um pouco para melhorar minha aclimatação.

Eu tinha escolhido uma rota muito ousada e vi que não conseguiria fazer. Isso me deixou bem desapontado, mas não tinha outro jeito. Se ficasse por lá eu não teria melhorado e acabaria desistindo, ficaria doente ou me acidentaria, cedo ou tarde. Acabamos tendo que fazer o itinerário mais “normal”. Não dei conta de subir pela Western Breach.

O trajeto não tem nenhum grande “desafio”, nenhum acidente topográfico complicado, nenhuma escalada em rocha ou gelo, nenhuma fenda para cruzar, nada do tipo. A grande dificuldade é a reação do corpo em relação à altitude. Inclusive, essa reação pode variar bastante de pessoa para pessoa, cada organismo responde de um jeito. Dormir durante o dia é muito difícil.

Nosso grupo foi bem exclusivo. Estávamos só eu e Francisco de turistas. O grupo completo designado para acompanhar a gente na escalada era composto de dois guias, um cozinheiro e dez carregadores, todos nativos da região. Esta configuração é comum no Kilimanjaro, o próprio governo indica que as operadoras que fazem este roteiro designem de 4 a 5 carregadores para cada turista no grupo.

Os carregadores, ou “porters”, são algumas das pessoas mais fortes que já vi. Eles carregam cerca de 25 kg de carga cada um, montanha acima. Enquanto eu bufava e sofria com a cabeça latejando, eles subiam praticamente correndo. Conheci gente que trabalha de carregador para pagar a escola dos filhos. Em geral, sentimos que eles gostam muito daquele trabalho.

A uma temperatura de 12 a 15 graus celsius abaixo de zero, iniciamos o sexto e tão esperado dia, o de ataque ao cume. Nossa subida foi na virada do dia 31 de dezembro para 1º de janeiro. Vimos os fogos de artifício do Réveillon na cidade de Moshi, muito abaixo de onde estávamos. A montanha toda estava gritando “happy new year”. Estimo que havia entre 300 e 500 pessoas de diferentes nacionalidades fazendo a escalada no mesmo período em que a gente. Arrisco dizer que os norte-americanos eram maioria. Mas tinha também alguns japoneses, europeus e até um grupo de amigos do Bahrein. Brasileiros, não encontramos nenhum.

Na chegada ao cume (cheguei às 6h20 da manhã), pudemos apreciar a primeira alvorada do ano no topo da montanha mais alta do continente. Não tenho palavras pra narrar como foi especial esse momento. Verti algumas lágrimas nessa hora e fiquei com medo que elas congelassem.

Fica até difícil relacionar os motivos para fazer uma aventura assim: é um dos “seven summits“, é a montanha mais alta da África e a sensação de realizar um desafio é indescritível. Reproduzindo os conselhos de Jim Hodgson, super atleta e um dos autores que mais entende do assunto, na abertura de sua obra “Como subir o Kilimanjaro”: “Sim, você deve ir. Absolutamente, totalmente e sem mais delongas, você deve subir o Kilimanjaro. Marque a data hoje mesmo, convença um amigo a ir junto. Treine o idioma swahili, adquira equipamento, coma miojo pra economizar dinheiro. E diga em voz alta: Sim! Eu vou subir o Kilimanjaro!”.

E é isso, você tem que fazer. Mas não é pra todo mundo. A experiência requer grande força de vontade, um certo desejo de sair da zona de conforto e um certo desapego a alguns valores (tipo banho – foram oito dias sem). Já o Francisco tirou de letra a subida. Só se sentiu um pouco cansado. Às vezes, quando estávamos em algum momento um pouco mais difícil, ele me perguntava: “de quem foi essa ideia?”, e dávamos risada. Tenho certeza que ter feito essa viagem com ele vai ser uma lembrança que vamos guardar com muito carinho para o resto da vida.

São muitas as dicas para quem vai, mas podemos resumi-las basicamente em duas: 1) Leia tudo que puder a respeito; 2) Prepare-se fisicamente.

Leia livros, blogs, sites, assista vídeos no youtube. Têm muitas dicas valiosas nessas fontes para ajudar a fazer seu planejamento, escolher a rota e fazer o check-list de equipamentos.

Para preparar-se fisicamente, não deixe para os últimos três meses (como eu fiz). Faça no mínimo seis meses de atividade aeróbica, sem esquecer da musculação. Se tiver condições, contrate um personal trainer e diga o que você pretende fazer.

O contato com a cultura local, se você conseguir sair do círculo turístico, é bastante rico. Muita gente vai lá para fazer pesquisas, escrever livros e por aí vai. A região tem muita gente das tribos Maasai. Eles vivem em aldeias e vão à cidade para fazer negócios. Eles ainda vivem em um estilo bem tradicional e valorizam bastante isso.

Depois dessa aventura, tiramos uns dias para descansar na praia e fazer safáris, vou falar melhor sobre esse outro lado em outra oportunidade por aqui.

Álbum:

Nicholas e Francisco têm outras aventuras a fazer e, quem sabe, um dia as realizam e nos contam aqui novamente? Estão na lista deles: atravessar o Atlântico num veleiro (ou o Índico, ou o Pacífico); ir de moto para o Ushuaia; atravessar os Andes de bicicleta, entre Mendoza e Santiago/Valparaíso; fazer algum trecho do Caminho dos Apalaches, nos Estados Unidos, e por aí vai. Por eles, a lista pode ser bem extensa.