Visões sobre o novo turismo

Na edição desta terça-feira (23/06) da Gaúcha ZH, Tiago Halewicz, nosso diretor cultural, escreve suas expectativas sobre o setor turístico pós-pandemia:

Pelo verdadeiro sentido de viajar 

 

  No final de fevereiro deste ano, quando embarquei em um voo no aeroporto de Marrakesh para iniciar o retorno ao Brasil, jamais pensei que esta seria a minha última viagem de 2020. Na chegada em Madri, onde faria uma conexão para São Paulo, um mundo que eu até então não conhecia começava a tomar forma. Os passos anônimos de rostos por trás de máscaras, mais numerosos do que o comum, anunciavam o início de uma nova era, como se o silêncio e a cautela rompessem a atmosfera festiva de outrora. Instintivamente, pessoas substituíam abraços, beijos e apertos de mão – tradicionais no rito de celebração de final de uma viagem bem sucedida – por um olhar solidário de agradecimento, porém à distância.
E assim, como num passe de mágica, tudo mudou. De supetão, sem nenhuma prática e deixando os velhos bons costumes de lado, entramos em uma nova era com uma cartilha em branco debaixo do braço. Entretanto, rapidamente um novo vocabulário preenche as linhas vazias e cruza a fronteira pegando carona para reivindicar o seu lugar na História.

  Há no mínimo dez anos, viajar significa grande parte das minhas atribuições profissionais. Empresto o meu olhar àqueles que desejam conhecer novas culturas, transcender o seu próprio espaço e viver experiências genuínas em um programa de turismo com curadoria. Iniciei minha trajetória nesse campo utilizando meu conhecimento como músico e a paixão ancestral pela Polônia em um roteiro intitulado Caminhos de Chopin, uma viagem de Varsóvia a Paris dedicada à memória do compositor mais celebrado do século XIX. E foram muitas as incursões ao mundo do piano romântico antes de conduzir meus viajantes a novos destinos sob o viés mais amplo da história da cultura. Assim, a estrada do conhecimento me levou à Islândia, Irã, Japão, Coreia do Sul, Jordânia, Israel, Marrocos, Zâmbia e também a lugares mais tradicionais do Velho Continente e das Américas. Todavia, turismo de qualidade não se faz apenas com erudição de um humanista. É necessário fundamento técnico, credibilidade, respaldo de uma agência de viagens dedicada, bons fornecedores e apoio de uma equipe local, tudo em sinergia para oferecer o contexto ideal, onde o aprendizado e a segurança possam agir como protagonistas. Afinal de contas, é isso que faz de uma viagem uma experiência plena e alimenta o desejo de seguir descobrindo o mundo.

  Em março deste ano vimos o mercado do turismo iniciar uma das maiores crises da história. Fronteiras fechadas, companhias aéreas praticamente inoperantes, hotéis, museus e restaurantes de portas cerradas adiaram sonhos e planos para conter a velocidade de uma pandemia. Algo cinematográfico, na pior concepção da palavra. Entretanto, não havia outra alternativa, era necessário parar como atitude solidária e responsável em nome de algo maior: as nossas vidas. O mundo virou quatro paredes. Para os mais afortunados, livros, computadores e smartphones se converteram em grandes aliados em um momento cujas únicas fronteiras que podemos cruzar são aquelas da nossa existência. E essas são as mais difíceis, porém necessárias para que possamos olhar o que tem do outro lado de uma maneira diferente, mais atenta, solidária e consciente. Agora todos somos responsáveis pela vida do outro, o que poderia ser regra desde muito tempo.

  A ciência caminha a passos largos para que possamos voltar à rotina, possivelmente em 2021. Contudo, precisamos ser solidários com essa arte para retomar a vida lá fora, reabrir o comércio, gerar empregos, circular pelas ruas, abraçar familiares, amigos e, no meu caso, preparar os  grupos e voltar a viajar. Não tenho dúvida de que voltaremos àquele universo que conhecíamos antes, talvez, inicialmente de forma mais tímida, em velocidade mais baixa e com cautela. Mas cabe a nós decidirmos que mundo queremos reconstruir para que no futuro não tenhamos que pagar uma conta tão alta.

  Sempre fiz planos a longo prazo. O turismo, de certa forma, requer essa paciência, planejamento, segurança e cautela a cada passo dado. São muitos tentáculos para compor o produto ideal, de acordo com o perfil de quem desejamos atender. Desde que passei a trabalhar em home office venho refletindo sobre como será a reinvenção desse mercado, um setor dinâmico e muito aquecido nas duas últimas décadas. Poderia dizer que, em determinadas situações, o volume de visitantes levou cidades ao colapso, exauriu algumas infraestruturas, exacerbou níveis de poluição, de produção de resíduos e despertou a ira de moradores. Agora que temos esse arrefecimento, torna-se necessário fazer o dever de casa e voltar os olhos a um turismo menos predatório, valorizando iniciativas mais sustentáveis. Vamos buscar destinos menos óbvios, valorizar os pequenos grupos, serviços personalizados e, na medida do possível, substituir grandes redes hoteleiras por alternativas menores, aquelas que não negligenciam medidas de higiene e capacidade de ocupação. Vamos andar mais a pé, realizar atividades ao ar livre, frequentar pequenos museus, pois eles também têm muito a nos ensinar. Haverá menos compras, menos bagagem e ficaremos mais tempo em cada lugar, evitando muitos deslocamentos, aeroportos ou estações de trem. O momento é de descomplicar para que possamos despir os adereços e buscarmos o verdadeiro sentido da palavra “viagem”. Ademais, todos nós temos que refletir como podemos sair ganhando com tudo isso. 

 

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