Diário de viagem: Irã, por Tiago Halewicz

Desde 1979, quando uma revolução destronou o último xá da Pérsia e impôs a teocracia, o Irã ingressou na categoria das nações mais fechadas do mundo e, é claro, das mais temidas. Sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, enriquecimento de urânio, sociedade vigiada pelas leis do islã e regime de retórica agressiva, que restringe as liberdades civis: assim é o Irã visto a olho nu. Mas é preciso atravessar essas barreiras para chegar ao berço da civilização e ao esplendor da antiga Pérsia, um tesouro ofuscado pelo fardo que carrega como “terra dos aiatolás”.

No último mês de outubro, embarquei para o Irã coordenando um grupo de 26 viajantes da Casamundi Cultura. Foram meses de atividades preparatórias, de história da Pérsia à geopolítica contemporânea, que nos ajudaram a driblar os medos, dúvidas e expectativas em relação à terra de Ciro, Dario e Xerxes. Percorremos o país a partir de Teerã em uma rota de quase 2 mil km em busca das joias arquitetônicas, das cidades da Antiguidade, das histórias do magnífico Império Pérsia, sem deixar de lado as crônicas contemporâneas que volta e meia estão nas manchetes dos jornais.

Era pouco mais de 5 horas da manhã quando pousamos no Aeroporto Internacional Iman Khomeini. O sol se levantava para desvendar aquele que seria o nosso cenário pelos próximos dias. Passaporte e aplicação de visto nas mãos, fomos para o departamento de imigração para a checagem de documentos e ingresso formal no país. Foi o primeiro contato com a gentileza persa em um atendimento rápido e descomplicado. Na esteira de bagagens já avistamos os nossos anfitriões, Fernanda e Hanif. Após um trajeto de pouco mais de 60 km, chegamos ao hotel, no norte da capital,  junto às montanhas Alborz; um local privilegiado com vista para toda a Teerã.

Declarada capital do Império Persa em 1795, após a coroação de Agha Mohammad Khan, da dinastia Qajar, Teerã é o centro político e econômico do país. Com uma população que beira os 14  milhões de habitantes – considerando a região metropolitana – a cidade tem uma atmosfera cosmopolita e nos remete aos episódios mais recentes da história iraniana, como a revolução de 1979 e os últimos dias do xá Mohammad Reza Pahlavi.

Conhecer Teerã não é uma tarefa fácil. É uma cidade imensa e com um trânsito caótico. Percorrer 10 km pode significar um “arranca e para” interminável. Não há o que fazer, o segredo é ter paciência e respirar fundo para curtir o máximo daquilo que esse lugar tem a oferecer, como a Torre Milad, que visitamos já no primeiro dia. Inaugurada em 2008 como parte de um centro internacional de convenções, a torre é a sexta mais alta do mundo, com 435 metros. Mas o que impressiona não é o tamanho, nem a vista de 360°, e sim, no nosso caso, o primeiro contato com o povo local. Eles nos acenam, com um inglês modesto perguntam de onde somos, para onde vamos, se gostamos do Irã, etc, etc. Sim, no Irã é possível conversar com qualquer desconhecido, mesmo que o idioma não ajude, o importante é estabelecer comunicação e, é claro, fazer uma foto. Eles adoram fotografar estrangeiros, é algo quase mítico, como se pudessem por uns instantes cruzar a fronteira e experimentar uma liberdade que desconhecem.

Ainda em Teerã, não poderia faltar a visita ao Palácio Golestan, sede imperial da dinastia Qajar, que também foi utilizada para as recepções formais dos Pahlavi. Inscrito na antiga cidadela, a construção conhecida como Palácio do Jardim das Rosas surpreende pelas salas ricamente decoradas com espelhos e pelos aposentos que expõem presentes recebidos de monarcas de vários recantos do mundo. Seguimos o passeio até o Banco Central do Irã, local que guarda a coleção de joias mais valiosa do mundo. Após passarmos por um rígido controle de segurança, descemos ao bunker onde encontramos a coroa de Farah Diba, mulher do xá deposto Mohammad Reza Pahlevi. Com 34 rubis, 36 esmeraldas e 1.469 diamantes, a coroa foi encomendada ao joalheiro francês Van Cleef & Arpels e entregue em 1967, 12 anos antes da Revolução Islâmica. Mas o que realmente impressiona, é o diamante rosa de 182 quilates, um dos maiores e mais valiosos do mundo.

No caminho de retorno ao hotel, passamos em frente à antiga Embaixada Americana em Teerã. O edifício é apenas um entre muitos memoriais da Revolução Iraniana. Era 3 de novembro, véspera do dia que os iranianos celebrariam os 40 anos da invasão ao prédio por militantes islâmicos, estopim de uma crise diplomática sem precedentes e que perdura até hoje. Episódio polêmico e complexo para ser tratado em um relato de viagem.

Após dois dias na capital, seguimos para Kerman, no leste do país. A Revolução Iraniana de 1979 ficaria um pouco de lado para dar espaço ao esplendor do Império Persa, um percurso de 950 km de avião e uma viagem de mais de dois mil e quinhentos anos na história da Pérsia. Nosso objetivo era percorrer o país de volta a Teerã, passando por importantes cidades como Yazd, Shiraz e Isfahan, bem como os sítios arqueológicos de Pasárgada e Persépolis.

Ao descer do avião já sentimos o clima desértico com umidade de aproximadamente 15% em uma região cercada de montanhas. Kerman é uma cidade economicamente importante, é polo industrial têxtil e recebe executivos de todo o país. Mas o nosso interesse era outro: conhecer o Jardim Shahzadeh, ou Jardim do Príncipe, entre outras atrações.

O jardim é uma estrutura fundamental no mundo persa. É a reprodução do Éden, um encontro com o divino e área de repouso e reflexão dos monarcas. O Jardim Shahzadeh, tombado pela UNESCO, é um oásis em meio à paisagem desértica da província de Kerman. Foi erguido a partir de 1850 pelo príncipe Mohammad Hassan Khan Qadjar Sardari Iravani e está entre os principais jardins persas do Irã. É indescritível a beleza do complexo de fontes, canteiros floridos, pavilhões cobertos com ladrilhos ricamente decorados e, sobretudo, o clima fresco às margens do Dasht-e Lut, deserto que registrou a temperatura mais alta da terra, +70.7°C. Esse deserto vai nos acompanhar ainda por boa parte da viagem.

Seguimos para o próximo destino: Yazd. A cidade fundada pelo Império Medo (678 a.C. – 549 a.C.) é o centro do zoroastrismo, a primeira manifestação monoteísta. Yazd também se destacou como polo têxtil nos tempos da Rota da Seda. Devido a sua importância comercial, foi visitada por Marco Polo em 1272. O bazar, os minaretes adornados em azul turquesa da Mesquita Jameh (Mesquita da Sexta-feira), do século XIV, e as grandes praças simbolizam a trajetória de importância que Yazd conquistou em seus quase três mil anos de história.

Mas voltamos a falar sobre Zoroastristmo. Antes da conquista islâmica, o Irã seguia majoritariamente a religião promulgada pelo profeta Zaratustra, uma das primeiras religiões da história da humanidade, com crenças monoteístas e rituais característicos. Embora muitos monumentos dessa época tenham sido destruídos, um dos principais ainda resiste: a Torre do Silêncio. A necrópole, cujos indícios remontam ao século IX, foi utilizada até meados da década de 1970. No alto, em uma estrutura circular, os mortos eram depositados para serem consumidos pelas aves.

Apesar da maioria muçulmana no país, a cidade de Yazd ainda desfruta de certa liberdade na manutenção do Zoroastrismo, praticado desde c. 400 a.C. A crença possui o fogo como um dos elementos sagrados de sua fé. No interior do Templo do Fogo está guardada a chama eterna de Zaratustra, alimentada todos os dias para que não se apague. O templo construído em 1934 é aberto ao público não praticante da religião desde a década de 1960. No subsolo, há um museu que auxilia no entendimento dessa fé milenar e do livro com as escrituras sagradas, o Avesta.

Seguimos a viagem. No caminho para Shiraz, o sítio arqueológico de Pasárgada representa o início do Império Aquemênida e da arte persa. Construída por Ciro, o Grande, no século VI a.C., Pasárgada simboliza o esplendor da dinastia, cuja maior conquista, do ponto de vista político, é a unificação de todo o mundo oriental próximo, inclusive o Egito, sob um poder centralizado. Pouco resta da antiga cidade, mas o principal elemento, a provável tumba de Ciro, está lá para testemunhar a grandiosidade aquemênida. Concluída essa etapa, continuamos para a cidade dos poetas e das rosas: Shiraz.

Com população de 1.200.000 habitantes, Shiraz está sobre aproximadamente 1.500 m de altitude no sudoeste do Irã, em uma região que aparentemente deixa de lado o clima desértico para receber influências do Golfo Pérsico. Fundada no século VII, Shiraz foi a capital da Dinastia Zand, entre 1750 e 1794, e por um breve período na era Safávida. A cidade da poesia e das rosas também é conhecida pela tapeçaria e por uma das mais cultuadas castas de uva para a produção de vinho, também chamada Shiraz. Ironicamente, qualquer tipo de bebida alcoólica é proibido em todo território iraniano desde a Revolução de 1979. Mas vamos ao que realmente interessa: Shiraz tem muitas belezas a oferecer.

Em Shiraz, a Mesquita de Nasir Ol-Molk, conhecida também como Mesquita Rosa, representa o esplendor da arquitetura iraniana. Construído a partir de 1876, o edifício sagrado para os muçulmanos é um espetáculo. Seus vitrais filtram a luz do sol que se projeta sobre os tapetes, criando um efeito único. Em seguida, fomos ao encontro da poesia de Hafez nos Jardins de Musalla. O mais importante entre os vários poetas medievais persas nasceu na cidade em 1315 e até hoje é cultuado pelos iranianos. Todos querem uma foto junto à estrutura de mármore que guarda os seus restos mortais. Durante a visita ainda fomos surpreendidos pelo nosso guia Hanif, que recitou versos do poeta na língua persa.

Pois não viemos aqui para aprisionar
Ou confinar nossos espíritos maravilhosos, 
E sim, para experimentar cada vez mais 
Profundamente nossa coragem, liberdade
E luz divinas 

Hafez (1315-1390)

Após duas noites em Shiraz, pegamos a estrada novamente para coroar essa viagem incrível com a visita a Persépolis e Isfahan. Declarada Patrimônio Cultural e Artístico da UNESCO, Persépolis foi fundada como centro cerimonial por Dario I, no séc. VI a.C.. Foi uma das capitais cerimoniais do Império Aquemênida e seguiu em construção ao longo de 200 anos, até a conquista por Alexandre, o Grande. Apesar da destruição liderada por Alexandre, Persépolis ainda é capaz de nos conduzir aos tempos de Dario e Xerxes e à importância do seu império. Em 1971, o mesmo local foi o cenário da festa mais cara já promovida por um monarca: a celebração dos dois mil e quinhentos anos do Império Persa, cujo anfitrião foi o último xá, Mohammad Reza Pahlavi. Com orçamento beirando os 100 milhões de dólares, o evento contou com 600 convidados, incluindo 50 chefes de estado e suas comitivas. Foram 4 dias para consumir 25 mil garrafas de vinho e 5 mil de champanhe em uma festa onde o xá começou a construir o seu trágico destino.

Sem vinho e sem champanhe, continuamos na estrada. Temos mais 400 km até Isfahan e ainda a necrópole de Naqsh-e Rostam para conhecer. Esculpida na rocha, a necrópole evidencia a mudança dos ritos funerários estabelecidos por Dario I. É possível que o complexo tenha sido influenciado pelos túmulos de Uratu, no Cáucaso. Das quatro tumbas conservadas, só a de Dario I traz uma inscrição, mas todas elas seguem o mesmo modelo de fachada talhada em cruz grega, com uma cena sacra na extremidade e um pórtico no braço transversal.

Era noite quando chegamos ao hotel de Isfahan, um antigo caravançarai, hoje no centro da cidade. Os caravançarais foram estruturas fundamentais no período da antiga Rota da Seda. Servia como entreposto para descanso e escoamento de mercadorias. Mas voltando a Isfahan, a joia da Pérsia se desenvolveu entre 2700 a.C. e 1600 a.C. e foi conquistada pelos árabes do Califado Omíada junto com o restante do império. A partir de 747, com a revolta dos abássidas, a cidade passou a ser governada quase que continuamente por essa dinastia até o século X.

Isfahan é a terceira maior cidade do país e também a mais visitada por turistas estrangeiros. Todos vão em busca da imponente arquitetura das mesquitas inscritas na segunda maior praça do mundo, Naqsh-e Jahan. Construída pelo xá Abbas I no início do século XVII, a praça está cercada por todos os lados por uma série de arcos de dois andares. Um complexo urbano homogêneo, coração da capital safávida. É um testemunho da sofisticação da arquitetura persa que reflete a imagem do mundo. Naqsh-e Jahan faz parte do cotidiano dos moradores da cidade para passeios em família e piqueniques, uma tradição do país. Os turistas vão em busca das mesquitas e do bazar, quilômetros de corredores lotados de mercadorias, mas muito diferente daquele ambiente abarrotado de pessoas como vemos em tradicionais bazares do oriente.

Na praça estão alguns dos edifícios mais importantes da era safávida, incluindo a Mesquita Real (ou Mesquita do Imã Khomeini) e a Mesquita Sheikh Lotfollah, além do Palácio Ali Qapu.

Localizada na parte sul de Naqsh-e Jahan, a Mesquita do Imã Khomeini hoje homenageia o mentor da Revolução Iraniana, mas foi erguida por ordem do xá Abbas I, entre 1611 e 1629. Seu esplendor é devido principalmente à beleza dos seus mosaicos de sete cores e inscrições de passagens do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. Na face leste a Mesquita Sheikh Lotfollah foi construída em 1603 para ser utilizada exclusivamente por membros da família real persa.

Isfahan ainda é conhecida pelas pontes, pela Mesquita Jameh, um verdadeiro testemunho da capacidade da engenharia persa da Alta Idade Média, pelo alto astral das pessoas que ocupam os espaços públicos (mesmo vigiados pela polícia de costumes), pelo comércio vibrante, pelo bairro dos armênios e seu incrível Museu da Música, pela pluralidade étnica e religiosa (Isfahan tem a maior comunidade judaica do Irã)  e, é claro, pela gentileza dos iranianos que buscam nos turistas notícias de “como é o mundo lá fora”.

Meu relato poderia ser muito mais extenso, muito mais detalhado, mas tem coisas que só a retina registra. São episódios, histórias e crônicas que marcam a vida de um um viajante. O Irã é muito mais do que imaginamos, é um destino especial e reservado exclusivamente para aqueles que fazem do “cruzar fronteiras” uma experiência única e desejam ser testemunhas oculares da história viva.

 

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